A história que ficou pelo caminho

São muitas as dimensões do acidente na ciclovia da Niemeyer. É bom começar pela face histórica: a estrutura caiu na altura do Viaduto Rei Alberto, construído em 1920 exatamente para retificar a reentrância existente no Costão do Morro Dois Irmãos, antes da passagem do monarca da Bélgica pela via. Não é de hoje, portanto, que a tal reentrância, visível nas imagens do acidente, potencializa o efeito das ondas sobre o costão. O Rio sabe disso desde que a área, também chamada de Gruta da Imprensa, servia a inocentes piqueniques, na primeira metade do século passado. 

O modo como a ciclovia foi construída, aparentemente sem um projeto executivo decente, revela, antes de tudo, um desprezo pelo know-how acumulado da engenharia, representado ali por um viaduto projetado de modo robusto para corrigir uma falha natural da rocha. Mostra, ainda, que a administração pública não valoriza o patrimônio histórico da cidade, como lembrou Pedro Da Luz Moreira. Os pilares da nova ciclovia eclipsaram definitivamente a bela construção da gruta. Em qualquer cidade decente, o local estaria preservado, policiado e seria um concorrido ponto turístico em dias de mar calmo.

O menosprezo com o passado segue com o evidente abandono da série histórica de ressacas no Rio. A ondulação que alcançou a costa carioca, de Sudeste, ganhou força pela influência da maré alta de Lua Cheia, mas nada que já não tenha sido visto inúmeras vezes. De cara, vem à memória a ocasião em que uma ressaca de Sul destruiu o deque do Mirante do Leblon, na mesma Niemeyer.

A ciclovia é ainda um desrespeito ao patrimônio cênico da cidade. Quem passa por ela se deslumbra – eu mesmo já corri e pedalei ali várias vezes – mas todos os outros mortais, que estão na via de veículos, perderam a vista do Atlântico, devido ao perfil mais elevado que a Niemeyer.

“Eu governo uma nação, e não uma estrada”. A frase é do próprio Rei Alberto, durante sua luta contra a passagem de tropas alemãs pela Bélgica. Estamos atrás de quem governe nossa cidade, sem esquecer de nossas ciclovias. Porque é o cidadão, patrimônio mais importante de uma cidade, quem as atravessa. E não o inimigo.

Crédito da Foto: Halley Pacheco de Oliveira (CC – Creative Commons)