São Conrado entre senhores e surfistas

Como jornalista, tenho acompanhado as principais obras de saneamento do Estado do Rio nos últimos 15 anos. Mas, desta vez, escrevo também na condição de surfista.

De surfista e cidadão.

O que os senhores da administração pública fizeram historicamente na Praia de São Conrado é trágico. Uma sucessão histórica de erros e omissões que resultou numa bomba de contaminação por esgoto que explode em quem usa o mar.

São Conrado é uma das praias mais bonitas da mais importante cidade do turismo brasileiro. O cenário merece reverência: uma orla pequena, de cerca de 1 quilômetro, que começa no sinuoso costão da Avenida Niemeyer e termina na Pedra da Gávea, maior bloco de rocha à beira-mar do planeta. O visual é adornado por um enorme anfiteatro de Mata Atlântica, atrás dos prédios, onde despontam, imponentes, o Morro do Cochrane e a Pedra Bonita, pico mais emblemático do voo livre brasileiro.

Já não faltariam razões para qualquer administrador olhar com atenção para as condições ambientais daquela praia.  Mas tem mais.

Graças à configuração geográfica, São Conrado é também uma das melhores arenas de surfe do Rio, talvez do Brasil. Uma onda potente e tubular, desejada pelos melhores surfistas do planeta, quando estão no Brasil. Por dois anos, a organização da etapa brasileira do Mundial tentou levar a disputa para aquela praia. Em vão, é claro.

Há um abismo entre o sonho da World Surf League e a realidade. Em São Conrado, está em curso uma tragédia silenciosa: recorrentemente, surgem surfistas com infecções intestinais sérias, hepatite, disenteria bacteriana e micoses espalhadas pelo corpo. Dias atrás, circulou pela rede a notícia de um skimboarder na UTI, com uma doença de veiculação hídrica provavelmente contraída naquelas águas.

A contaminação daquele paraíso é também trágica porque São Conrado talvez seja o exemplo máximo de democracia praiana, de convivência entre diferentes classes sociais. Moradores do asfalto e do morro compartilham, unidos, o mesmo drama. Dividem as ondas, constroem uma nova cultura de praia. O drama do esgoto, curiosamente, serviu como liga necessária a essa união. A cara do Rio.

O problema ali é grave, senhores. Não há termo de comparação com praias próximas, como o Leblon. Na vizinha, que também vive muito poluída, vigora a lógica, conhecida de suas administrações, do “saneamento de tempo seco”. Em dias sem chuva, um sistema formado por uma comporta e uma bomba elevatória consegue bloquear e captar a rede pluvial e, por tabela, parte do esgoto clandestino.

Em São Conrado, não tem tempo bom. Apesar da reforma feita recentemente para revitalizar o canto esquerdo da praia, com a ampliação da capacidade da bomba elevatória e novos dutos, não há uma comporta que bloqueie fisicamente o esgoto que desce pelo Canal da Rocinha em dias secos. Ou seja, a contaminação corre mesmo na estiagem, com sol escaldante.

A cereja desse bolo mofado é uma estação de tratamento no mesmo canal, que tem um histórico de ineficiência e constantes interrupções pelo custo de manutenção.

Na ocasião das obras dessa estação, em 2005, os então senhores administradores realizaram a mais infame das ações de saneamento nas praias do Rio. Foi aberto um túnel no costão da Niemeyer para lançar, diretamente no mar, exatamente em frente aos surfistas, o esgoto supostamente tratado pela também recém-inaugurada estação.

Um mico.

Dois anos depois da inauguração, como mostrou o jornal O Globo, os indicadores de qualidade da água revelaram uma piora em comparação com o período anterior às obras. A curva negativa, na verdade, já era visível um mês depois da entrega do novo equipamento público. Estava nos gráficos e na saúde dos surfistas.

Convém aos senhores não repetirem a prática de uma autoridade pública da época, que, durante uma entrevista, garantiu, vestido num terno, que tomaria banho naquelas águas aparentemente transformadas.

Não consta ter cumprido a promessa.

A história da obra de 2005 circula nos bastidores técnicos dos órgãos ambientais do Rio como um exemplo de mau saneamento, mas a lição parece não ter sido aprendida nos círculos de poder. O poder público acaba de finalizar uma obra de saneamento, desta vez no canto direito da praia, aparentemente com a mesma lógica: desviar o esgoto das línguas negras da areia para um canal junto ao costão. Como consequência, o esgoto passa a correr sem qualquer barreira para o mar. Resolve um problema, mas cria um problema ainda maior de saúde pública. Uma nova piora da qualidade da água é aguardada pelos surfistas, agora do lado do Pepino.

Talvez, entre os tomadores de decisão, falte alguém que esteja conectado com os resultados de suas intervenções. Alguém que efetivamente seja um usuário do bem público, que se sensibilize com os danos.

Talvez falte um surfista, senhores.

Diante dessa ausência, a sociedade civil se mobiliza. A luta pela revitalização da praia começou com o movimento Salvemos São Conrado, criado em 2012 por surfistas locais que desde então denunciam sistematicamente o colapso do sistema de saneamento do bairro, usando como principal arma o engajamento e a força das mídias sociais.

Ano passado, a luta foi encampada por instituições de peso, como a Fundação SOS Mata Atlântica e o Instituto-E, além das principais associações de surfe do Rio, como a Arpoador Surf Clube (ASC), a Associação de Surfistas e Amigos da Prainha (Asap) e a Associação de Surfistas e Amigos do Leblon (ASAL).

Nascia a campanha “Água Limpa é a ONDA”, em defesa de medidas para combater a poluição sistêmica das praias e rios do Rio de Janeiro e do Brasil. Pelo seu histórico e por sua importância para o surfe, São Conrado foi escolhido como projeto piloto.

O esforço coletivo das instituições presentes rendeu frutos. O Governo do Estado criou a Comissão de Acompanhamento do Programa de Despoluição da Praia de São Conrado, composta por representantes da sociedade civil, entre os quais membros da campanha, e do governo, para acompanhar e fiscalizar as obras.

O abaixo-assinado da “Água Limpa é a ONDA” já soma cerca de 3.500 assinaturas no Avaaz. O big rider Carlos Burle, um dos maiores surfistas de ondas gigantes do mundo, estrelou um vídeo-manifesto sobre a poluição de São Conrado. Ícones do surfe mundial, como os brasileiros Gabriel Medina e Filipe Toledo, já se engajaram no projeto. Os resultados virão com o esforço.

Nós, surfistas, ao lado das associações e instituições que defendem a conservação ambiental, resistiremos na água. Não deixaremos que a má gestão derrote tão emblemático patrimônio natural do Rio. Vamos brigar para impedir que a Praia de São Conrado se transforme em mais uma memória de cidade perdida.

A campanha é uma enorme janela de oportunidade para os senhores realmente buscarem, em parceria com quem tem legitimidade, uma solução eficiente e definitiva para a praia.

Quem conseguir revitalizá-la não será mais chamado senhor, e sim de surfista.

(Artigo publicado originalmente no site Waves no dia 12 de fevereiro de 2016)